A loja existe há mais de 150 anos, é simultaneamente loja e casa de habitação e reserva em si muitas histórias. Cruzou várias gerações na aldeia de S. Domingos e arredores, muitos têm memórias de infância e recordam esta loja com muito carinho.
A primeira loja foi a da tia Elisa, conhecida como a viúva de Francisco Maria Diógenes. Após a morte da tia, passou a ser gerida por Fortunata Maria Pereira. Em 1984 passa para a filha Maria Francisca Pereira Diógenes Vilhena, na altura com 52 anos de idade.
Manteve-se sempre a funcionar, foi-se adaptando aos tempos, iniciou como mercearia, venda de tecidos e chapéus. Com Maria Francisca continuou com a retrosaria e venda de atoalhados, pijamas, roupa de cama e mesa até fechar em 2013. Foi-se modernizando ao longo das várias épocas que atravessou.
A Nossa História
Esta loja está situada numa pequena aldeia do Alentejo Litoral, mais propriamente em S. Domingos da Serra, concelho de Santiago do Cacém, distrito de Setúbal.
Fortunata era também a enfermeira da aldeia. Existia um médico em S. Domingos, que a ensinou a dar injeções e a executar alguns tratamentos, como lavagem aos ouvidos, zaragatoas à garganta, tratamento de feridas, emplastros para as dores e ventosas de vidro que colocava para aliviar as dores. Quando o médico deixou de viver na aldeia, toda esta atividade medicinal era feita por ela no quarto junto à loja, aonde muitas pessoas se deslocavam.
Fortunata, ainda mal tinha rompido o dia, já ela estava a percorrer as casas da aldeia para saber como tinham passado a noite as pessoas que estavam doentes.
Estava sempre pronta para ajudar qualquer pessoa, mesmo na loja, quando sentia que alguém necessitava de algum produto.
Francisca, sua filha, era uma pessoa mais recatada, mais de casa, dedicando-se à loja e ao serviço doméstico. Na loja existiu sempre uma arca e depois um banco onde as pessoas se sentavam para descansar um pouco e dar “dois dedos de conversa”. Francisca era muito boa ouvinte e uma mulher muito sensata. Muitas pessoas da aldeia iam desabafar com ela coisas das suas vidas, estava sempre pronta para ajudar nas dificuldades de cada um. Recorriam a ela para ler ou escrever cartas para os seus familiares.
A loja não era só um ponto de venda, mas um local de conversa, desabafo e até tratamento. Esta loja guarda muitas memórias de muitos habitantes da aldeia e arredores.
Funcionou até janeiro de 2013. Nesta altura, a Francisca tinha 81 anos, e com muita pena sua encerrou o seu meio de convívio com as pessoas da aldeia, mais do que de subsistência, pois recebia a sua pequena reforma.
Antes de partir manifestou desejo da sua loja voltar a abrir, e a 9 de julho de 2025, pela mão da sua filha Clara, o seu sonho tornou-se realidade, apesar de Francisca já não estar entre nós desde 2016.
Em sua memória ficou a Loja da Chiquinha, como lhe chamavam as pessoas da aldeia.